terça-feira, 14 de junho de 2016

“Qualquer coisa eu te ligo”.


(...)

Mais cedo, às cinco da tarde, eu havia ligado. Estava animada pra contar sobre o meu novo trabalho, mais do que satisfeita comigo mesma, eu estava eufórica. Eu queria compartilhar as boas novas. Eu queria compartilhar tudo com ele.

“Eu não sei... Qualquer coisa eu te ligo mais tarde” – foi a resposta ao meu telefonema animado. E eu não gostei do “qualquer coisa” (...) Mas quando uma mulher quer acreditar que existe amor onde não existe, passamos por cima de “qualquer coisa”. Respondi que tudo bem e fui para casa com aquele vazio geladinho no peito, que nada mais é do que seu corpo lhe mandando spoilers sobre uma dor não tão delicada que está por vir. “Furada, corra”, mas não. Não corri. E fiquei esperando um telefonema, sendo mais sadomasoquista do que a fã mais fervorosa do Mister Grey. Eu esperei. E esperei. E esperei.

O meu celular tocou. Não era ele. “Ah não”. Era alguém do meu novo trabalho me convidando pra conhecer um novo bar, provavelmente tentando me enturmar. (...) Eu estava um caco. A realidade do “ele não está tão afim de você” estava me dando um tapa. Cruel. Mas eu não queria pensar sobre isso, queria postergar a dor. “Tudo bem, eu vou”.

(...)

O meu celular tocou naquela noite sim. Era ele. De madrugada pedindo pra eu ir lá dormir na sua casa. Provavelmente não tinha conseguido nenhuma outra garota mais interessante. Eu desliguei sem nem responder e não atendi mais. Não atendi no dia seguinte e não atendi ele nunca mais.

Eu não havia desencanado, eu não estava fazendo joguinho, eu não havia me apaixonado instantaneamente por outra pessoa, eu havia desistido. Desistir é muito mais forte. (...)

Após quase cinco anos, por algum motivo me lembrei daquela noite no último fim de semana. Lembrei que liguei mais muitas vezes quando não deveria ter ligado, respondi mensagens pra alguns paqueras quando não deveria ter respondido e esperei ligações daquele jeitinho suicida mais algumas vezes também. Mas eu nunca fui e nunca quero ser a pessoa que diz:

“Qualquer coisa eu te ligo”.

© obvious: http://lounge.obviousmag.org/di_sainha/2015/02/qualquer-coisa-eu-te-ligo.html
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8 comentários:

  1. Fizeste bem.... o homem que faz isso com uma mulher é uma babaca filho duma puta... e como as mulheres adoram babacas filhos de puta...
    O verdadeiro homem diria naquela hora:
    - Estás feliz....??? Eu estou mais que você!! Te encontro agora para te dar um abraço...!!!
    Se você me ligar eu digo: "Qualquer coisa é menos importante que uma ligação tua..!!!
    Acho que sou mesmo um besta.... por isso não "pego" ninguém.
    Não aprendi a ser filho da puta-babaca-canalha....deveria ter aprendido!!!!

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  2. Desisti, ás vezes, é o maior ato de coragem.

    Fique bem.

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  3. O qualquer coisa não justificava prolongar o relacionamento

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  4. "Mas quando uma mulher quer acreditar que existe amor onde não existe, passamos por cima de “qualquer coisa”."

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  5. Muitas vezes acabamos relevando, relevando, relevando. E isso acaba nos destruindo. Você está mais do que certa. Dói, é claro. Mas protelar também não ajudaria muito.

    Beijão

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  6. Ahhhh, as relações são complicadas!

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  7. Desistir é realmente uma decisão forte. Quantas mulheres gostariam de ter a força para isso.
    Lindo post, e muito bem escrito.
    Beijinho
    Ruthia d'O Berço do Mundo

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  8. Entendo...um belo dia acordei, olhei pra ele e pensei:"it's over!" Deixei uma cartinha de desamor e parti!

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